Última atualização: 07.07.2026

Resumo

Os agonistas do receptor de GLP-1 e terapias incretínicas relacionadas já não aparecem na literatura psiquiátrica apenas como hipótese neurobiológica para comportamentos compulsivos. O campo cresceu, mas a evidência continua fortemente desigual entre os domínios clínicos.

O que são incretinas e hormônios incretínicos (ex: GLP-1)?

Incretinas são hormônios produzidos principalmente pelo intestino após a ingestão de alimentos, especialmente carboidratos e gorduras, que avisam ao pâncreas: “a glicose vai subir; prepare a insulina” (mnemônico: "incretinas incrementam insulina")

O efeito incretínico descreve justamente essa diferença: a glicose ingerida por via oral provoca uma resposta de insulina maior do que a mesma glicose administrada por via intravenosa, porque o intestino libera hormônios que amplificam a secreção de insulina.

As duas incretinas principais são:

  • GLP-1, ou glucagon-like peptide-1: produzido sobretudo por células L do intestino, mais no íleo e no cólon. Ele aumenta a secreção de insulina de forma dependente da glicose, reduz glucagon quando a glicemia está alta, retarda o esvaziamento gástrico, aumenta saciedade e conversa com vias cerebrais de apetite e recompensa. É a base farmacológica de semaglutida, liraglutida, dulaglutida, exenatida etc.
  • GIP, ou glucose-dependent insulinotropic polypeptide: produzido sobretudo por células K do duodeno e jejuno. Também aumenta a secreção de insulina de modo dependente da glicose. Ele tem ações metabólicas próprias, inclusive em tecido adiposo e no glucagon, e hoje voltou ao centro da discussão por causa da tirzepatida, que age em receptores de GIP + GLP-1.

A consequência clínica útil é que esses hormônios aumentam a resposta insulinotrópica principalmente quando há glicose elevada, sem “forçar” insulina de modo cego como algumas drogas antigas. Por isso o risco de hipoglicemia isolada com agonistas GLP-1 costuma ser baixo, salvo quando combinados com insulina ou sulfonilureias.

O GLP-1 natural dura pouco porque é rapidamente degradado pela enzima DPP-4. A farmacologia aproveitou essa limitação de duas maneiras: com agonistas do receptor de GLP-1, que imitam o GLP-1 e duram muito mais, e com inibidores de DPP-4, que prolongam a ação das incretinas naturais.

Em termos práticos, incretinas são sinais hormonais do intestino para o pâncreas e o cérebro, coordenando insulina, glucagon, esvaziamento gástrico, saciedade e parte do comportamento alimentar.

O sinal mais consistente está no transtorno por uso de álcool, sustentado por ensaios randomizados com semaglutida, coortes de grande porte, revisões sistemáticas e dados observacionais recentes em pacientes com disfunção metabólica. Para tabaco, cannabis e opioides, a literatura sugere associações favoráveis, ainda predominantemente observacionais.

Para transtorno de compulsão alimentar e binge eating, há sinal clínico promissor, porém baseado em estudos pequenos, heterogêneos e vulneráveis a confusão entre melhora ponderal e melhora psicopatológica.

Para cocaína e estimulantes, a evidência humana ainda é insuficiente e a base mais forte permanece pré-clínica.

Para jogo patológico, compras compulsivas, sexualidade compulsiva, tricotilomania, escoriação e transtorno obsessivo-compulsivo, a literatura atual não sustenta GLP-1RA como tratamento.

A formulação clínica mais defensável é seletiva. GLP-1RA podem atuar como tratamento metabólico com possível benefício adicional sobre craving, saliência motivacional e consumo compulsivo em subgrupos selecionados, sem ocupar o lugar de psicofármaco anticompulsivo universal.

Resumo — Consulta Rápida
DomínioLeitura clínica
ÁlcoolSinal mais consistente · ensaios randomizados, coortes, revisões e dados observacionais
TCA e BEDPromissor · estudos pequenos e heterogêneos · peso ≠ psicopatologia
Tabaco, cannabis e opioidesAssociações favoráveis · evidência ainda predominantemente observacional
Cocaína e estimulantesEvidência humana insuficiente · base mais forte pré-clínica
Jogo, compras, sexualidade compulsiva, tricotilomania, escoriação e TOCNão há sustentação atual para GLP-1RA como tratamento
Formulação práticaTratamento metabólico com possível benefício anticraving em subgrupos · não anticompulsivo universal

Introdução

Os agonistas do receptor de GLP-1 (GLP-1RA) entraram na prática clínica como tratamentos metabólicos, inicialmente para diabetes tipo 2 e depois para obesidade. O interesse psiquiátrico surgiu porque seus efeitos não se limitam à glicemia e ao peso: a mesma via incretínica que participa da resposta pós-prandial também conversa com saciedade, esvaziamento gástrico, eixo intestino-cérebro e, em modelos experimentais, circuitos de recompensa. Daí nasce uma hipótese plausível: em alguns pacientes, reduzir urgência alimentar, craving ou saliência de pistas poderia modificar comportamentos de consumo compulsivo.

Essa hipótese só permanece clinicamente útil quando o termo "compulsão" é tratado com precisão. Comer compulsivamente, beber apesar de consequências, fumar, usar opioides, jogar ou comprar de forma patológica, arrancar cabelos, escoriar a pele e realizar rituais obsessivo-compulsivos compartilham uma linguagem clínica, mas não necessariamente o mesmo alvo terapêutico. A leitura da eficácia depende dessa separação entre fisiologia incretínica, plausibilidade mecanística e evidência clínica por transtorno.

A literatura recente tem melhores evidências para comportamentos de consumo ligados a recompensa, craving e saliência motivacional, especialmente álcool, comida e algumas substâncias. Ela é bem menos convincente para compulsões mediadas por ansiedade e neutralização, como rituais do TOC, e para comportamentos repetitivos focados no corpo, como tricotilomania e escoriação.

Craving e Saliência Motivacional:

Craving: experiência subjetiva de desejo ou urgência de consumir.

Saliência motivacional: peso que pistas, contextos ou recompensas ganham ao capturar atenção e direcionar busca, mesmo quando o paciente não descreve isso como vontade consciente intensa.

Introdução — Consulta Rápida
PontoLeitura clínica
Ponto de partidaGLP-1RA são tratamentos metabólicos com interesse psiquiátrico por saciedade e recompensa
Hipótese centralReduzir urgência alimentar, craving ou saliência de pistas pode modificar consumo compulsivo
Cuidado conceitual"Compulsão" não é uma entidade neurobiológica única
Melhor encaixeConsumo ligado a recompensa: álcool, comida e algumas substâncias
Pior encaixeRituais do TOC e comportamentos repetitivos focados no corpo
Termos-chaveCraving = desejo subjetivo · saliência motivacional = captura por pistas e contextos

Fisiologia do GLP-1 e racional farmacológico

O GLP-1, ou peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1, é um hormônio incretínico derivado do processamento pós-traducional do proglucagon. No trato gastrointestinal, é secretado principalmente por células L enteroendócrinas, mais abundantes no íleo e no cólon, em resposta à chegada de nutrientes e a sinais neurais e hormonais. Sua secreção pós-prandial ajuda a coordenar a comunicação entre intestino, pâncreas, nervo vago, tronco encefálico e hipotálamo [48-50].

Infográfico sobre ação do GLP-1 nas células L enteroendócrinas e comunicação entre intestino, pâncreas e cérebro

Do ponto de vista metabólico, o GLP-1 potencializa a secreção de insulina de modo dependente da glicose, reduz a secreção de glucagon quando a glicemia está elevada, retarda o esvaziamento gástrico e aumenta saciedade. Esse perfil explica por que agonistas do receptor de GLP-1 reduzem hiperglicemia pós-prandial, diminuem fome e favorecem perda ponderal. Também explica parte dos efeitos adversos esperados, especialmente náusea, plenitude, vômitos, constipação e redução excessiva do apetite em pessoas vulneráveis [48-50].

O GLP-1 endógeno tem meia-vida curta por degradação pela dipeptidil peptidase 4 (DPP-4). Os agonistas farmacológicos, como exenatida, liraglutida (Saxenda® e Victoza®) e semaglutida (Ozempic®, Wegovy® e Rybelsus®), foram desenhados para estimular o receptor de GLP-1 por mais tempo e com perfis farmacocinéticos diferentes. A tirzepatida (Mounjaro®) pertence a uma etapa posterior da farmacologia incretínica, como agonista duplo de GIP e GLP-1, e por isso não deve ser tratada como simples sinônimo de semaglutida ou liraglutida [31,48,49].

Para a psiquiatria, a perda de peso não esgota o interesse desses fármacos. Receptores e vias responsivas ao GLP-1 participam de circuitos de saciedade no tronco encefálico e hipotálamo, e interagem com sistemas de recompensa e ingestão motivada. Essa ponte biológica torna plausível investigar redução de craving, food noise *, reforço por álcool ou drogas e saliência de pistas. Plausibilidade, porém, não é indicação clínica: o mesmo mecanismo que pode ajudar um paciente com compulsão alimentar e obesidade pode ser irrelevante para compulsões ritualísticas do TOC ou perigoso em restrição alimentar patológica.

* Food noise:

É a presença constante, intrusiva e repetitiva de pensamentos sobre comida, com vontade de beliscar, imaginar o que comer depois, desejo por doces, checar comida disponível ou negociar mentalmente “só mais um pedaço”, mesmo sem fome fisiológica.

É um termo clínico e coloquial para descrever hipersaliência alimentar, quando a comida fica “alta demais” no sistema de recompensa e atenção.

Fisiologia do GLP-1 e racional farmacológico — Consulta Rápida
ParâmetroDetalhes
OrigemHormônio incretínico · células L do íleo e do cólon · resposta pós-prandial
Efeito metabólico↑ insulina dependente da glicose · ↓ glucagon se glicemia alta · ↓ esvaziamento gástrico · ↑ saciedade
FarmacologiaGLP-1 endógeno é degradado por DPP-4 · agonistas duram mais
TirzepatidaAgonista duplo GIP + GLP-1 · não é sinônimo simples de semaglutida ou liraglutida
Ponte psiquiátricaCircuitos de saciedade, recompensa, craving, food noise e saliência de pistas
Limite clínicoPlausibilidade não é indicação · risco em restrição alimentar patológica

Mapa de evidência por domínio

DomínioMelhor evidência recenteInterpretação clínica
Transtorno por uso de álcoolEnsaios randomizados, coortes, meta-análises e comparação observacional contra medicamentos aprovados para AUDSinal mais forte, sobretudo quando há obesidade, diabetes ou disfunção metabólica; ainda não substitui tratamento padrão.
Transtorno de compulsão alimentar e binge eatingRevisões sistemáticas, estudos pequenos, dados em obesidade e frameworks comportamentaisPromissor, mas heterogêneo; exige rastreio de risco alimentar e desfechos além do peso.
Tabaco e nicotinaEmulações observacionais e revisão focada em cessaçãoSinal plausível; abstinência tabágica direta ainda não está estabelecida.
CannabisCoortes em obesidade e diabetes e meta-análise amplaSinal observacional; sem ensaio terapêutico suficiente.
OpioidesCoortes de overdose, mortalidade e revisão rápidaSinal observacional relevante; não substitui medicamentos para OUD.
Cocaína e estimulantesEstudos em roedores e revisão rápida com predominância animalHipótese mecanística; não sustenta prescrição clínica.
Jogo e compras compulsivasRelatos de caso e dados de redes sociaisEvidência anedótica; útil para hipótese, não para orientação terapêutica.
TOC, tricotilomania, escoriação, sexualidade compulsiva e uso problemático de internetBusca negativa ou material indiretoNão há base para tratar GLP-1RA como "anti-compulsivo" universal.
Mapa de evidência por domínio — Consulta Rápida
Nível práticoDomínios
Mais forteAUD, sobretudo com obesidade, diabetes ou disfunção metabólica
PromissorTCA e BED, mas com heterogeneidade e necessidade de desfechos além do peso
ObservacionalTabaco e nicotina, cannabis e opioides
Pré-clínico e hipóteseCocaína e estimulantes
Não orientar tratamentoJogo, compras compulsivas, TOC, tricotilomania, escoriação, sexualidade compulsiva e uso problemático de internet

Transtorno por uso de álcool

O transtorno por uso de álcool (AUD = Alcohol Use Disorder) é o domínio em que a hipótese GLP-1RA está mais madura. No ensaio randomizado de fase 2 de Hendershot et al., publicado em 2025 no JAMA Psychiatry, semaglutida reduziu consumo em tarefa laboratorial, bebidas por dia de beber, craving semanal e beber pesado ao longo do tempo em adultos com AUD, embora nem todos os desfechos de consumo tenham melhorado. A amostra era pequena, de curta duração e composta por indivíduos não necessariamente buscando tratamento, o que limita a generalização, mas oferece prova de conceito humana [2].

O ensaio randomizado de Klausen et al., publicado em 2026 no Lancet adicionou um dado clinicamente mais forte: semaglutida 2,4 mg semanal, em participantes com AUD moderado a grave e obesidade, reduziu dias de beber pesado ao longo de 26 semanas quando associada a terapia cognitivo-comportamental padrão. Esse resultado não transforma semaglutida em monoterapia para AUD nem autoriza inferir o mesmo efeito em AUD sem obesidade [1].

As coortes reforçam o sinal, mas também carregam os limites esperados de estudos observacionais. A coorte sueca de Lähteenvuo et al., publicada em 2025 no JAMA Psychiatry associou semaglutida e liraglutida a menor risco de hospitalização por AUD [3]. Em obesidade e diabetes, a análise de registros eletrônicos de Wang et al., publicada em 2024 no Nature Communications associou semaglutida a menor incidência e recorrência de AUD [4]. Em população pós-bariátrica, o estudo de Fakhoury et al. associou terapias incretínicas a menor incidência de AUD [21]. O estudo observacional de Gougol et al., publicado em 2026 no Alimentary Pharmacology & Therapeutics acrescentou uma comparação direta em pacientes com AUD e disfunção metabólica, na qual GLP-1RA se associaram a menor recaída em 1 ano em comparação com naltrexona, acamprosato e dissulfiram; esse achado é provocativo, mas deve ser lido como sinal observacional, não como superioridade terapêutica definitiva [35].

As metanálises ajudam a calibrar o entusiasmo, pois enquanto os estudos observacionais tendem a favorecer GLP-1RA em eventos relacionados a álcool, os ensaios randomizados ainda são poucos, heterogêneos e nem sempre mostram redução estatisticamente robusta de consumo ou craving quando agrupados [22,28,39]. O estudo observacional de Palzes et al., publicado em 2026 no Biological Psychiatry Global Open Science, com medida de drinks por semana, mostrou redução numérica maior em usuários de GLP-1RA, mas a diferença global ficou no limite da significância; o efeito foi pequeno em participantes de baixo risco basal [43]. O ensaio de exenatida de Klausen et al., publicado em 2022 no JCI Insight, por sua vez, foi globalmente negativo para dias de beber pesado, com sinal exploratório favorável em IMC acima de 30 kg/m² e possível sinal desfavorável em IMC baixo, reforçando que fenótipo metabólico pode modificar resposta [27].

Atenção:

Na prática, AUD com obesidade ou diabetes é o cenário em que GLP-1RA merecem maior atenção clínica. Ainda assim, eles não substituem naltrexona, acamprosato, dissulfiram, manejo de abstinência, redução de danos ou psicoterapia quando esses tratamentos são indicados.

Transtorno por uso de álcool — Consulta Rápida
Ponto clínicoDetalhes
Maturidade da evidênciaDomínio mais maduro para GLP-1RA
Semaglutida fase 2Reduziu consumo laboratorial, bebidas por dia de beber, craving semanal e beber pesado ao longo do tempo
Klausen et al. 2026Semaglutida 2,4 mg semanal + terapia cognitivo-comportamental reduziu dias de beber pesado em AUD moderado a grave com obesidade
CoortesMenor hospitalização, incidência e recorrência de AUD e sinais favoráveis em disfunção metabólica
Modificador provávelFenótipo metabólico e IMC podem influenciar resposta
CondutaNão substitui tratamentos estabelecidos para AUD

Transtorno de compulsão alimentar e comportamento alimentar

No transtorno de compulsão alimentar e no comportamento de binge eating (comer compulsivo), o sinal é promissor, mas menos robusto que em AUD. Revisões recentes descrevem redução de episódios, frequência ou escores de compulsão alimentar com liraglutida, semaglutida, dulaglutida ou outras terapias incretínicas, mas a base ainda depende de estudos pequenos, instrumentos heterogêneos e seguimento curto [14-16,23,44].

Não confunda Binge Eating Disorder (BED) com binge eating:

binge eating pode significar duas coisas:

1. BED (ou TCA): trata-se do diagnóstico formal, isto é, Transtorno de Compulsão Alimentar.

2. Binge eating: o comportamento ou sintoma de comer compulsivamente, que pode aparecer em BED ou TCA, bulimia nervosa, anorexia subtipo compulsão-purgação, obesidade com episódios subclínicos, uso de substâncias, depressão atípica etc.

A revisão sistemática de White et al., publicada em 2026 na Pharmacotherapy incluiu 12 estudos humanos, geralmente pequenos, e descreveu reduções consistentes em comportamentos de binge eating, além de perda de peso e melhora metabólica [15]. A metanálise de Radkhah et al., publicada em 2025 em Eating and Weight Disorders encontrou melhora na Binge Eating Scale e perda ponderal, mas incluiu apenas cinco estudos e 182 participantes [23]. A meta-análise de Violante-Cumpa et al., publicada em 2026 na Endocrine Practice, sobre medicamentos para perda de peso em obesidade e binge eating, encontrou sinal para liraglutida em estudos individuais, mas sem síntese meta-analítica robusta para episódios de binge por heterogeneidade de medidas [44].

O ponto clínico decisivo é que melhora de peso não equivale automaticamente a melhora do transtorno alimentar. Em TCA / BED, o desfecho psiquiátrico deve incluir frequência de episódios, perda de controle, culpa, sofrimento, restrição compensatória, purgação, funcionamento e instrumentos como Binge Eating Scale quando disponíveis. Peso isolado pode mascarar piora psicopatológica.

A revisão de Leziak et al., publicada em 2026 no Journal of Psychiatric Research reforça o outro lado da balança. Revisões sobre transtornos alimentares alertam para supressão marcada do apetite, restrição alimentar patológica, comportamento alimentar desordenado, uso indevido e relatos de sintomas psiquiátricos, incluindo ansiedade e depressão, em indivíduos vulneráveis; até o momento, porém, a literatura agregada não demonstra de forma consistente que GLP-1RA causem piora de ansiedade ou depressão. [45].

Agonistas dos receptores GLP-1 pioram depressão, ansiedade e provocam aumento do risco de suicídio?

A resposta curta é que a literatura agregada não sustenta essa conclusão.

A metanálise de Ebrahimi et al., publicada em 2025 no JAMA Psychiatry, com 80 ECRs e 107.860 participantes, foi compatível com ausência de desequilíbrio em eventos psiquiátricos graves ou não graves e em sintomas depressivos. Para ansiedade e suicidalidade havia menos estudos, mas os estudos individuais não mostraram diferença significativa.

A comunicação da FDA de 2026 revisou 91 ensaios placebo-controlados com 107.910 participantes e concluiu que não houve aumento de ideação ou comportamento suicida nem de eventos psiquiátricos relevantes como ansiedade, depressão, irritabilidade ou psicose; por isso solicitou a remoção do alerta de ideação e comportamento suicida dos rótulos de Saxenda, Wegovy e Zepbound.

A comunicação do PRAC da EMA de 2024 também concluiu que a evidência não apoiava associação causal com pensamentos ou atos suicidas ou autolesivos, e o comunicado da MHRA britânica afirmou que os dados não sustentavam associação causal com suicídio, ideação suicida, autolesão ou depressão.

Em obesidade classe 3, a coorte de Maynard et al., publicada em 2026 no International Journal of Eating Disorders não encontrou piora significativa de risco de transtorno alimentar ou sofrimento psíquico após início de GLP-1RA, mas isso não equivale a ensaio terapêutico em TCA [17]. A formulação mais segura é integrar GLP-1RA a cuidado psicológico, nutricional e comportamental, aproveitando uma possível "janela de baixa urgência" para automonitoramento, controle de estímulos e reestruturação de hábitos, sem tratá-los como intervenção isolada [46].

Transtorno de compulsão alimentar e comportamento alimentar — Consulta Rápida
Ponto clínicoDetalhes
Força do sinalPromissor, mas menos robusto que em AUD
Base disponívelEstudos pequenos, instrumentos heterogêneos e seguimento curto
ArmadilhaPerda de peso não equivale automaticamente a melhora psicopatológica
Desfechos úteisEpisódios, perda de controle, culpa, sofrimento, restrição, purgação e funcionamento
RiscoSupressão marcada do apetite, restrição patológica e uso indevido em vulneráveis
Formulação seguraIntegrar a cuidado psicológico, nutricional e comportamental

Tabaco, cannabis e opioides

Para tabaco e nicotina, a evidência humana recente ainda é mais observacional do que terapêutica. A revisão de Hendershot et al., publicada em 2026 na Biological Psychiatry descreve plausibilidade pré-clínica, possível redução de craving e prevenção de ganho de peso pós-cessação, mas ainda posiciona GLP-1RA como classe promissora, não como tratamento estabelecido para tabagismo [38].

Para cannabis, coortes em obesidade e diabetes associaram semaglutida a menor incidência e recorrência de transtorno por uso de cannabis, e a metanálise de Choudhury et al., publicada em 2026 na Clinical Therapeutics encontrou associação favorável, mas com heterogeneidade importante [6,39]. Ainda não há ensaio clínico que sustente uso rotineiro para esse fim.

Para opioides, há sinais observacionais relevantes. Em OUD e AUD, o estudo de Qeadan et al., publicado em 2025 na Addiction associou prescrições de agonistas de GIP e de GLP-1 a menor taxa de overdose por opioides [7]. Em pacientes com diabetes tipo 2 e OUD, a emulação de ensaio-alvo de Wang et al., publicada em 2024 no JAMA Network Open associou semaglutida a menor risco de overdose em 1 ano [24]. Em OUD, a coorte TriNetX de Lakhani e Zheng, publicada em 2026 no Journal of Addictive Diseases associou GLP-1RA a menor mortalidade em 5 anos, menor overdose e menor utilização de emergência e internação [36]. A revisão rápida de Leach et al., publicada em 2026 no Drug and Alcohol Dependence Reports, específica para opioides e estimulantes, encontrou resultados favoráveis na maioria dos estudos, mas com predomínio de evidência animal [47].

Esses achados justificam ensaios e vigilância clínica, mas não a substituição de tratamentos estabelecidos. Para OUD, GLP-1RA não devem substituir a prescrição de buprenorfina, metadona, naltrexona, naloxona, redução de danos ou acompanhamento especializado.

Como sinal transversal, a coorte de Cai et al., publicada em 2026 no BMJ associou GLP-1RA a menor risco de transtornos por uso de substâncias em veteranos dos Estados Unidos com diabetes tipo 2 [8]. O estudo caso-controle de Abegaz et al., publicado em 2026 na Frontiers in Psychiatry apontou na mesma direção em indivíduos com diabetes tipo 2 ou obesidade [42]. Esses achados ampliam a plausibilidade epidemiológica, mas continuam sendo observacionais.

Tabaco, cannabis e opioides — Consulta Rápida
DomínioLeitura clínica
Tabaco e nicotinaSinal observacional; abstinência tabágica direta não estabelecida
CannabisCoortes favoráveis em obesidade e diabetes; sem ensaio terapêutico suficiente
OpioidesCoortes sugerem menor overdose, mortalidade e utilização aguda
Limite comumEvidência predominantemente observacional ou com forte componente animal
CondutaJustifica ensaios e vigilância; não substitui tratamentos estabelecidos

Cocaína, jogo e compras compulsivas

Para cocaína e estimulantes, a base recente mais interessante é mecanística. Tirzepatida reduziu autoadministração, motivação e busca por cocaína em roedores, com efeitos em dopamina mesolímbica e em sistemas GABA e glutamato [12]. Semaglutida reduziu escolha por cocaína versus alimento em ratos [13]. Esses resultados justificam ensaios humanos, mas não prescrição clínica para transtorno por uso de cocaína.

Para jogo patológico e compras compulsivas, há apenas relatos de caso recentes (semaglutida para jogo patológico e tirzepatida para compras compulsivas) sem ensaios clínicos ou corpo de evidência suficiente para orientar prescrição de GLP-1RA ou agonistas incretínicos correlatos para essas indicações [18,19]. O estudo de redes sociais de Arillotta et al., publicado em 2024 na Brain Sciences encontrou relatos de cessação ou interrupção de álcool, cafeína, nicotina e compras compulsivas após GLP-1RA, mas esse material é autorrelato, enviesado, sem diagnóstico, sem controle e sem validação clínica [25]. Seu valor é gerar hipóteses e captar linguagem fenomenológica, como redução de "food noise", mas não demonstra eficácia.

Para TOC, tricotilomania, escoriação, sexualidade compulsiva e uso problemático de internet, essa atualização não encontrou base clínica suficiente para recomendação terapêutica. A ausência de evidência aqui importa, porque evita o erro de transformar "compulsão" em categoria farmacológica única.

Por que essa distinção de categorias para o fenômeno da compulsão importa?

O uso racional dos GLP-1RA é mais coerente quando o comportamento depende de saliência de pistas, craving e recompensa consumatória. Esse modelo se aproxima da teoria da sensibilização do incentivo *, em que pistas associadas ao reforço passam a ganhar "wanting" patológico por vias mesocorticolímbicas [51]. É nesse território de recompensa, saliência e comportamento de busca que a literatura psiquiátrica recente sobre GLP-1RA tem maior plausibilidade [9,41].

  • ATENÇÃO - Teoria da Sensibilização do Incentivo:

Robinson e Berridge propuseram que, na dependência, o cérebro não fica apenas “gostando mais” (liking) da droga ou do comportamento; ele passa a "querer mais" (wanting) de forma automática, intensa e desproporcional, principalmente diante de pistas associadas ao comportamento, como cheiro, local, horário, aplicativo, dinheiro disponível, estresse ou propaganda.

Essa distinção é importante:

  • Liking = prazer, gostar, recompensa hedônica.
  • Wanting = saliência motivacional, impulso de buscar, “preciso disso agora”.

Na dependência, o desejar (wanting) pode crescer muito mesmo quando o prazer (liking) cai. O paciente pode já não ter tanto prazer com álcool, cocaína, jogo ou compras, e ainda assim manter fissura e busca compulsiva; clinicamente, isso aparece como a experiência de “eu nem queria gostar disso, mas meu cérebro está puxando”.

O mecanismo proposto envolve sensibilização duradoura de circuitos mesolímbicos dopaminérgicos, que tornam certos estímulos e pistas muito carregados de valor motivacional.

Em jogo patológico e compras compulsivas, a teoria ajuda a explicar por que a pessoa pode ser capturada por gatilhos, como site de aposta, notificação, shopping, cartão, promoção ou sensação de oportunidade, mesmo sabendo racionalmente que aquilo vai trazer prejuízo. O estímulo passa a funcionar como um "ímã motivacional".

Assim, a dependência envolve um sistema de desejo patológico, hiper-reativo a pistas, que continua empurrando a pessoa para a recompensa mesmo quando o prazer diminuiu ou o custo já ficou evidente.

O TOC segue outra lógica clínica. O quadro envolve obsessões intrusivas e compulsões executadas para reduzir ameaça, dúvida ou ansiedade, com implicação de circuitos córtico-estriato-tálamo-corticais e sistemas serotoninérgico, dopaminérgico e glutamatérgico. A psicofarmacologia estabelecida usa ISRS em doses e tempo adequados, clomipramina e, em casos resistentes, potencialização com antipsicóticos ou agentes glutamatérgicos, além de exposição com prevenção de resposta [52].

Nos comportamentos repetitivos focados no corpo, como tricotilomania e escoriação, a evidência farmacológica humana também aponta para alvos diferentes. Ensaios randomizados com N-acetilcisteína, modulador glutamatérgico com ação proposta no núcleo accumbens, mostraram redução de sintomas em tricotilomania e escoriação [53,54].

Usar o mesmo rótulo "compulsão" para todos esses quadros pode apagar diferenças de psicopatologia e de alvo farmacológico. No estado atual, GLP-1RA devem ser pensados para fenótipos de consumo e recompensa, não para compulsões ritualísticas ou repetitivas sem evidência direta.

Há evidências de NAC e outros fármacos glutamatérgicos no tratamento do TOC também?

A melhor síntese recente é a revisão sistemática e metanálise de Coelho et al., publicada em 2025 no JAMA Network Open sobre fármacos glutamatérgicos em TOC e transtornos relacionados. Ela incluiu 27 ECRs, com 1369 participantes, e encontrou sinal global favorável para medicamentos glutamatérgicos. Entretanto, a alta heterogeneidade dos estudos e o possível viés de publicação exigem interpretação cautelosa [55].

Medicamentos que modulam o glutamato poderiam reduzir sintomas ao alterar plasticidade sináptica e excitabilidade neuronal. A NAC atuaria aumentando glutationa e modulando glutamato. A memantina reduziria transmissão glutamatérgica excessiva em vias córtico-estriatais. A lamotrigina poderia estabilizar membranas neuronais e reduzir liberação de glutamato, enquanto o topiramato poderia reduzir hiperatividade neuronal por efeitos inibitórios em receptores AMPA e cainato. Essas mudanças poderiam explicar melhora sintomática, sobretudo no TOC.

Sobre topiramato e lamotrigina, eles podem ser incluídos em estudos como medicações glutamatérgicas, por mecanismo funcional direto ou indireto.

  • O topiramato, além de bloquear canais de sódio e potencializar GABA-A, também antagoniza receptores glutamatérgicos AMPA e cainato. Portanto, é um anticonvulsivante multimodal com ação antiglutamatérgica direta.
  • A lamotrigina é menos “glutamatérgica” no sentido direto. Sua classificação principal é a de bloqueador ou modulador de canais de sódio voltagem-dependentes, com estabilização da membrana neuronal. Secundariamente, isso reduz liberação pré-sináptica de aminoácidos excitatórios como glutamato e aspartato. Portanto, ela é melhor descrita como moduladora indireta da transmissão glutamatérgica.
Psicofarmacologia resumida da N-acetilcisteína:

A N-acetilcisteína é proposta como "modulador da homeostase glutamatérgica", com efeitos em circuitos córtico-estriatais, especialmente envolvendo o núcleo accumbens, além de ações antioxidantes e anti-inflamatórias.

O modelo mais aceito é indireto. A NAC influencia o sistema cistina–glutamato, a glia, o transportador GLT-1 e a homeostase glutamatérgica, com relevância particular em circuitos córtico-accumbens estudados em craving, recaída e compulsividade.

Em compulsões, o ensaio clínico de Grant et al., publicado em 2016 no JAMA Psychiatry mostrou benefícios no transtorno de escoriação e discutiu que o efeito pode decorrer da modulação do drive glutamatérgico pré-frontal para o núcleo accumbens [54].

Cocaína, jogo e compras compulsivas — Consulta Rápida
DomínioLeitura clínica
Cocaína e estimulantesBase humana insuficiente; sinal principal é pré-clínico
Tirzepatida e semaglutidaReduziram desfechos relacionados a cocaína em roedores
Jogo e comprasRelatos de caso e redes sociais; valor gerador de hipótese
TOC, tricotilomania, escoriação, sexualidade e internetSem base clínica suficiente para recomendação terapêutica
Erro a evitarTransformar "compulsão" em categoria farmacológica única

Mecanismos prováveis em craving e recompensa

A ponte com transtornos compulsivos depende de saber se a estimulação farmacológica de GLP-1R modifica saliência motivacional, aprendizado de recompensa, resposta a pistas e comportamento de busca, além de simplesmente causar saciedade ou náusea. Revisões recentes destacam efeitos em ingestão de drogas e comportamentos aditivos em modelos pré-clínicos, com interesse particular em vias mesolímbicas e sinalização GLP-1R [9,41]. Em camundongos, um circuito inibitório septal foi implicado na recompensa alcoólica e nos efeitos supressores da liraglutida sobre ingestão de álcool [11]. Estudos genéticos também sugerem associação entre agonismo GLP1R e GIPR modelado e menor binge drinking [10]. A revisão de Patil et al., publicada em 2026 no Addictive Behaviors Reports mostra que o interesse clínico já chegou ao registro de ensaios, mas ainda como campo em consolidação [37].

O mecanismo mais defensável, no estado atual, é probabilístico e multifatorial. GLP-1RA podem reduzir a saliência motivacional de recompensas alimentares e de outras recompensas em alguns subgrupos. A contribuição relativa de náusea, saciedade, perda de peso, melhora metabólica, efeito central direto e mudança de contexto comportamental ainda não está resolvida.

Mecanismos prováveis em craving e recompensa — Consulta Rápida
Ponto mecanísticoLeitura clínica
Pergunta centralGLP-1R modifica saliência motivacional, aprendizado de recompensa, pistas e busca?
Evidência mecanísticaInteresse em vias mesolímbicas e sinalização GLP-1R
Álcool em animaisCircuito inibitório septal implicado na recompensa alcoólica e efeito da liraglutida
GenéticaAgonismo GLP1R e GIPR modelado associado a menor binge drinking
Mecanismo provávelProbabilístico e multifatorial
Não resolvidoPeso relativo de náusea, saciedade, perda de peso, efeito central e contexto comportamental

Segurança e seleção de pacientes

Os eventos adversos mais esperados são gastrointestinais, como náusea, vômitos, diarreia, constipação, desconforto abdominal e redução importante do apetite. Em AUD com obesidade, o ensaio de Klausen et al., publicado em 2026 no Lancet descreveu eventos mais frequentes com semaglutida, geralmente leves a moderados e transitórios [1]. Na prática psiquiátrica, esses efeitos não devem ser tratados apenas como tolerabilidade: em pacientes com transtornos alimentares, eles podem reforçar restrição, purgação, medo de comer, dependência psicológica do emagrecimento ou uso clandestino de dose.

Além dos sintomas gastrointestinais comuns, há eventos raros ou menos frequentes que mudam a relação risco-benefício. A metanálise de He et al., publicada em 2022 no JAMA Internal Medicine, com 76 ensaios randomizados, encontrou aumento de risco de doença vesicular ou biliar com GLP-1RA, incluindo colelitíase, colecistite e doença biliar, com sinal mais forte em doses mais altas, maior duração de uso e estudos voltados à perda ponderal [56]. As bulas de semaglutida e tirzepatida também destacam pancreatite aguda, inclusive hemorrágica ou necrotizante, doença aguda de vesícula biliar, reações gastrointestinais graves, lesão renal aguda por depleção volêmica, hipoglicemia quando há associação com insulina ou secretagogos, reações de hipersensibilidade, complicações de retinopatia diabética e aspiração pulmonar em anestesia geral ou sedação profunda [29-31]. Na coorte de Sodhi et al., publicada em 2023 no JAMA, sobre uso para perda de peso, GLP-1RA se associaram a pancreatite, gastroparesia e obstrução intestinal, mas os eventos eram raros e os intervalos de confiança eram amplos; portanto, esse achado deve funcionar como sinal de vigilância clínica, não como prova causal isolada para todo paciente [57]. Em adultos com diabetes tipo 2, a coorte com comparador ativo de Crisafulli et al., publicada em 2026 no Annals of Internal Medicine não encontrou grandes diferenças de segurança gastrointestinal grave entre dulaglutida, semaglutida subcutânea e tirzepatida, o que evita escolher uma molécula como "isenta" desses riscos, mas também não elimina a necessidade de estratificação individual [58].

Na avaliação oftalmológica, o ponto prático é separar três fenômenos: retinopatia diabética, perda visual súbita e associação observacional com neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica (NAION). O ensaio SUSTAIN-6, publicado em 2016 no New England Journal of Medicine descreveu mais complicações de retinopatia diabética com semaglutida em pacientes com diabetes tipo 2 e alto risco cardiovascular, especialmente naqueles com retinopatia prévia; a bula do Wegovy no DailyMed atribui parte da preocupação ao risco conhecido de piora transitória da retinopatia quando há queda rápida da glicemia [29,59]. A revisão sistemática de Natividade et al., publicada em 2025 no JAMA Ophthalmology não resolveu definitivamente o risco de NAION, mas a raridade e gravidade do desfecho justificam orientar o paciente a procurar avaliação urgente diante de perda visual súbita, escotoma novo ou edema de papila suspeito [34,60].

A segurança psiquiátrica agregada é relativamente tranquilizadora, mas é preciso que o clínico esteja vigilante. A metanálise de Ebrahimi et al., publicada em 2025 no JAMA Psychiatry, em diabetes e obesidade, não encontrou aumento estatisticamente significativo em suicidalidade ou autoagressão, embora apenas parte dos ensaios registrasse sistematicamente esses eventos [26]. Uma metanálise publicada em 2026 na Clinical Therapeutics encontrou resultados heterogêneos e de certeza frequentemente baixa ou muito baixa, com sinais que dependem muito do tipo de comparador [39]. Em pessoas com depressão ou ansiedade, a coorte sueca de Taipale et al., publicada em 2026 no Lancet Psychiatry encontrou associação de semaglutida e liraglutida com menor risco de piora de doença mental e menor risco de autoagressão para GLP-1RA como grupo, mas o desenho continua observacional e a população era de usuários de antidiabéticos [40].

Antes e durante o uso, o rastreio psiquiátrico deve incluir padrão alimentar restritivo, purgação, vômitos autoinduzidos, abuso de laxantes ou diuréticos, medo intenso de ganho ponderal, distorção de imagem corporal, história de anorexia ou bulimia, ideação suicida, piora de humor, uso de álcool e outras substâncias, tratamentos específicos para SUD já indicados e risco de uso estético fora de controle médico.

Checklist mínimo para prescrição segura

Item a checarPor que importa
Indicação metabólica e alvo clínico mensurávelGLP-1RA não têm dose psiquiátrica validada; antes de iniciar, definir se o alvo é obesidade, diabetes, risco cardiometabólico, AUD com obesidade ou compulsão alimentar mensurável.
Contraindicações formaisHistória pessoal ou familiar de carcinoma medular de tireoide, MEN2 ou hipersensibilidade grave contraindica uso; calcitonina e ultrassonografia de tireoide de rotina têm baixo valor, mas nódulos ou sintomas cervicais exigem avaliação.
Pancreatite e fatores pancreáticosInvestigar pancreatite prévia, dor epigástrica persistente, cálculo biliar, hipertrigliceridemia e álcool pesado; se pancreatite for suspeita, suspender a medicação e conduzir como pancreatite aguda.
Vesícula e vias biliaresHistória de cólica biliar, colelitíase, colecistite, colestase ou dor em hipocôndrio direito aumenta a necessidade de vigilância; US e exames hepáticos fazem sentido quando há história ou sintomas, não como ritual universal.
Motilidade gastrointestinalGastroparesia grave, obstrução intestinal prévia, constipação severa, opioides e anticolinérgicos aumentam o risco clínico de náuseas persistentes, vômitos, retenção gástrica, obstrução ou intolerância à titulação.
Rim e volume intravascularVômitos, diarreia e baixa ingesta podem precipitar lesão renal aguda, sobretudo em DRC, idosos, diuréticos, bloqueadores do SRAA (IECA ou BRA) ou inibidores de SGLT2; checar creatinina e eTFG basal quando houver risco e repetir se houver sintomas de depleção.
Diabetes, insulina e sulfonilureiasO risco de hipoglicemia sobe com insulina ou secretagogos; revisar glicemias, HbA1c e necessidade de reduzir essas drogas antes da titulação.
Retinopatia diabética e sintomas visuaisDiabetes com retinopatia prévia ou queda rápida de HbA1c exige seguimento oftalmológico; perda visual súbita, escotoma novo ou dor ocular não devem ser tratados como efeito benigno.
Gravidez, lactação e contracepçãoEvitar uso em gestação; semaglutida deve ser suspensa pelo menos 2 meses antes de gestação planejada pela meia-vida longa, e tirzepatida exige método não oral ou barreira por 4 semanas após início e após cada aumento de dose.
Medicamentos orais críticos e procedimentosRetardo do esvaziamento gástrico pode alterar absorção de fármacos de índice terapêutico estreito e aumentar preocupação com resíduo gástrico em anestesia ou sedação; avisar anestesia e endoscopia e monitorar fármacos críticos.
Risco psiquiátrico e de uso indevidoEm TCA, dismorfia corporal, purgação, uso estético clandestino, depressão instável ou SUD ativo, o principal risco pode ser comportamental: reforço de restrição, escalada de dose, ocultação de sintomas ou abandono de tratamento específico.
Plano de titulação e retornoA maioria dos problemas aparece na escalada; combinar retorno, sinais de alarme, pausa de titulação e critérios de suspensão evita normalizar dor abdominal persistente, vômitos incoercíveis, icterícia, desidratação ou perda visual.
Segurança e seleção de pacientes — Consulta Rápida
DomínioPonto de atenção
Eventos comunsNáusea, vômitos, diarreia, constipação, desconforto abdominal e ↓ apetite
Psiquiatria alimentarEfeitos GI e apetite podem reforçar restrição, purgação ou uso clandestino
SuicidabilidadeMetanálise não mostrou desequilíbrio significativo, mas registro foi incompleto
Saúde mentalDados agregados são tranquilizadores, mas observacionais e heterogêneos
Rastreio obrigatórioRestrição, purgação, anorexia, bulimia, suicídio, humor, substâncias e uso estético

Implicações clínicas

Não existe dose psiquiátrica "anticompulsiva" validada.

Melhores candidatos para uso de GLP-1AR na Psiquiatria:

O melhor candidato é o paciente com indicação metabólica clara, como obesidade, diabetes tipo 2 ou alto risco cardiometabólico, e comportamento de consumo compulsivo mensurável, especialmente AUD com obesidade ou TCA com obesidade e food noise clinicamente relevante.

Piores candidatos para uso de GLP1 AR na Psiquiatria:

O pior candidato é aquele cuja queixa principal é compulsão ritualística, TOC, tricotilomania, escoriação, uso problemático de internet ou sexualidade compulsiva sem fenótipo metabólico e sem desfecho de consumo objetivo.

Em AUD, acompanhar dias de beber pesado, bebidas por dia de consumo, craving, AUDIT, Timeline Follow-Back quando disponível e quando fizer sentido. Em TCA, acompanhar frequência de episódios, perda de controle, Binge Eating Scale ou instrumento equivalente, culpa, sofrimento, restrição compensatória, funcionamento, peso e marcadores metabólicos.

A conversa com o paciente deve explicitar que o medicamento é primariamente metabólico. Os sinais de redução de vontade de beber, comer ou fumar aparecem em alguns grupos, com benefício incerto e sempre subordinado ao tratamento específico indicado, incluindo psicoterapia, redução de danos, manejo de abstinência ou medicações para dependência. Essa formulação evita expectativa mágica e ajuda a medir o benefício real.

Implicações clínicas — Consulta Rápida
DecisãoAplicação prática
DoseNão há dose psiquiátrica anticompulsiva validada
PrescriçãoSeguir indicação metabólica, bula, registro local, contraindicações, custo e tolerabilidade
Melhor candidatoIndicação metabólica clara + comportamento de consumo mensurável
Pior candidatoQueixa ritualística, TOC, tricotilomania, escoriação, sexualidade ou internet sem fenótipo metabólico objetivo
Alvo antes de iniciarDefinir desfecho mensurável por domínio
Mensagem ao pacienteBenefício possível não garantido; não substitui tratamento específico

Conclusão

Agonistas de GLP-1 são uma fronteira real em psiquiatria metabólica e dependências, desde que a leitura permaneça seletiva. O sinal mais maduro está no AUD, especialmente quando há obesidade, diabetes ou disfunção metabólica. TCA e BED formam um campo promissor, mas exigem rastreio alimentar cuidadoso e integração com cuidado psicológico e comportamental. Em tabaco, cannabis e opioides, os sinais observacionais justificam ensaios e vigilância, não uso como tratamento primário. Cocaína permanece principalmente no terreno pré-clínico, enquanto jogo, compras compulsivas, sexualidade compulsiva, tricotilomania, escoriação e TOC não têm base suficiente para indicação.

O avanço do campo dependerá de ensaios randomizados por transtorno, desfechos psiquiátricos diretos, biomarcadores de uso quando aplicáveis, monitoramento de eventos adversos, análise de subgrupos metabólicos e comparação contra tratamentos estabelecidos.

Conclusão — Consulta Rápida
SínteseLeitura clínica
Leitura corretaSeletiva, não universal
Sinal mais maduroAUD, especialmente com obesidade, diabetes ou disfunção metabólica
Promissor com cautelaTCA e BED exigem rastreio alimentar e cuidado psicológico e comportamental
Apenas observacionalTabaco, cannabis e opioides justificam ensaios e vigilância
Pré-clínico ou sem base suficienteCocaína, jogo, compras, sexualidade compulsiva, tricotilomania, escoriação e TOC
Próximo passo do campoEnsaios randomizados por transtorno, desfechos diretos, biomarcadores, segurança e comparação contra tratamentos estabelecidos

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